Eu e o macaco falante

 

Volta e meia eu passo pelo macaco falante e lá está ele esfaqueando a própria perna, gemendo de dor e reclamando de como a vida é ruim para ele.

Então eu chego para o macaco falante e digo:

– Urko, para deixar de sentir dor, basta deixar de esfaquear a própria perna!

E o macaco falante responde contrariado:

– Quem você pensa que é para dizer o que eu devo ou não devo fazer?

Ou:

– Isso é a sua opinião! Você não pode querer impor sua opinião sobre os outros!

Ou:

– Isso é coisa coisa de quem odeia preto e pobre andando de avião!

Ou:

– Imposto é roubo!

E continua esfaqueando a própria perna.

No dia seguinte, lá está o macaco falante, mancando, com uma ferida infeccionada na perna, gemendo de dor.

Então eu digo:

– Eu te disse! Eu te disse! Eu te disse!

E o macaco falante responde:

– Tá vendo?! Isso é culpa sua! Você botou mau olhado! 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 07/03/2017

Um programa de TV para concorrer com o BBB!

Tive uma idéia genial! Será um sucesso! Vou ficar rico! Vou lançar um programa de TV para concorrer com o BBB que vai estourar a boca do balão, roubar toda a audiência da Globo e me deixar milionário! Não tem pra mais ninguém, o programa vai se chamar PPP e será o maior sucesso da TV brasileira! 

PPP significa Programa Para Pensadores. Será um talk show com dicas de economia doméstica, poupança, empreendedorismo e investimento. Terá entrevistados de alto nível, gente de sucesso no mundo dos negócios e que ensinará como desenvolver a disciplina necessária para poupar dinheiro ao invés de gastar com bobagens e dará dicas de como tornar pequenas empresas melhor gerenciadas e mais lucrativas, além de comentar as oportunidades de investimento na Bolsa de Valores e como funciona o home broker (comércio de ações feito a partir de casa).

Para diversificar, teremos entrevistados que orientarão os telespectadores quanto à nutrição paleolítica, os exercícios de alta intensidade mais eficazes para o desenvolvimento muscular e o condicionamento cardiorrespiratório, as ervas que possuem estudos científicos que comprovam que possuem benefícios à saúde na forma de chás ou temperos e as técnicas de leitura e exercícios matemáticos que mais contribuem para a agilidade mental e a memorização a longo prazo. Sem esquecer, é claro, de um quadro interessantíssimo de divulgação de ciência e tecnologia, que ninguém é de ferro e um pouco de diversão sempre faz bem.

Era o programa que faltava na TV brasileira! Basta de falta de oportunidades de aprendizado do que é realmente útil para o nosso bolso, a nossa saúde e o nosso desenvolvimento intelectual! Não será nem necessário fazer propaganda! O povo vai comentar o programa na parada do ônibus, na fila do banco e nos corredores do supermercado:

– Menina, você viu que fantástica aquela dica de portfólio com ações do setor de transmissão de energia?

– Maravilhosa! Vou vender meu carro para converter tudo em ações do setor elétrico! Aquela planilha de custo de oportunidade de aquisição de um automóvel e seus custos de manutenção versus o custo de transporte terceirizado com aplicação do excedente no mercado mobiliário foi incrível! Vou anunciar o carro esta semana mesmo!

– Sério? E o que você vai fazer com com a sua garagem, que você acabou de ampliar?

– Vou implantar uma estufa aquapônica, querida! Um consórcio de produção de hortaliças e peixes herbívoros para produzir alimento de alta qualidade biológica, a um custo ínfimo, é uma oportunidade que não dá para deixar passar!

– Pois eu dou o maior apoio! A minha estufa aquapônica já está madura e a produção está excelente. Depois que passei a comer peixes toda a semana, aumentando minha ingestâo de ômega-3 natural, nunca mais tomei anti-inflamatórios e estou sentindo melhorias sensíveis na minha memória.

– E o seu Protocolo Tabata, você já está conseguindo fazer os oito sprints completos?

– Não, mas estou quase! Já consigo chegar no sétimo sprint! Faço duas vezes por semana, sempre lembrando que as fibras musculares tipo 1 consomem muito menos energia que as fibras 2a, 2b e 2x, portanto é necessário promover um stress miofibrilar profundo com depleção de glicogênio para promover o desenvolvimento destas fibras.

– Você tem toda razão. Está no caminho certo. Mas veja, querida, o gerente de conta chamou a sua ficha.

– Beijos, querida! Vou lá encerrar minha conta de poupança e transferir tudo para a conta de investimentos.

Sem dúvida alguma, o PPP será um sucesso total! Mal vejo a hora de começar as gravações! Alguém aí se candidata a ajudar a ler as milhares de cartas e e-mail que chegarão com dúvidas e sugestões de pauta? Certamente vou precisar de ajuda. A Globo que se cuide. O BBB está com as horas contadas. Um povo prafrentex como o brasileiro jamais vai deixar passar uma oportunidade tão boa!

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 24/01/2017

Da estupidez ao mau caráter

Assim que escrevi o artigo de ontem sobre a estupidez, eu descobri esta treta aqui, que também ilustra muito bem o que eu disse naquele texto, mas que é muito melhor compreendido se atentarmos para o mau caráter de muitos comentaristas.

O guri da foto fez uma piadinha idiota: colocou na tela do computador a imagem de uma criancinha negra com cara de coitadinha estendendo a mão para pegar algo, tirou uma selfie bebendo um copo de água gelada e postou a foto com a legenda “sai fora, essa é minha”. Uma banalidade, merecia quando muito um “afff… :-P” e mais nada.

Pois bem… Até o presente momento são novecentos e noventa compartilhamentos e cinco mil, duzentos e tantos comentários xingando e ameaçando e aquela hipocrisia toda de quem nunca deu a menor bola para crianças necessitadas e nunca fez porcaria nenhuma para ajudar alguém de fato.

Peraí… Quem comete ofensas e ameaças por causa de uma piadinha não está fazendo algo muito pior do que a suposta ofenso original contida na piadinha? Isso não parece “ligeiramente” mau caráter, não? 

Como isso pode ser deletado a qualquer momento, resolvi copiar uma pequena amostra dos já mais de cinco mil e duzentos comentários.

Os comentários mais frequentes, obviamente, eram ofensas e desejos de maldades:

Idiota!! Um dia Deus vai te mostra o verdadeiro caminho e vai parar de querer aparecer para os outros e receber muitas curtidas!!! Hoje você é um verme!!!.

Essa merda ai tem mãe ???pq se tiver quem merece o xingamento é ela por nao educar esse mlk ??

Queria saber até que ponto chega a ignorância e a imbecilidade de uma pessoa retardada assim!

Nojento seboso

IDIOTA, como todos q compartilharam e curtiram… morram de sede seus vermes filhinhos de papai!

Não podia faltar, é claro, o mau caráter de quem quer calar o que não quer ouvir:

gente, é tao fácil resolver isso, é so denunciar a página, quanto mais denúncias mais rápido ela é excluída, então vamos la derrubar essa página!!!

E não podiam faltar, obviamente, as ameaças:

Brincadeira idiota bunda mole arranca tua cabeça isso sim idiota quero vê se fosse tu la

Filhu da puta merece levar um quebra na rua verme imundo ah se eu foase de tua cidade eu ia tira uma foto tu chorando pedindo perdao mizeravel desprezivel

Felizmente, para não perdermos totalmente a fé na humanidade, havia também alguns comentários de bom senso:

Isso mesmo cambada de cretinos, CHOREEMM MAIS! Pior que esse post ridículo é a falsa indignação de vocês, por uma situação da qual, na realidade, VOCÊS não dão a MÍNIMA! Demonstram falsa indignação coletiva através do ódio, para assim se sobressair com seu ego inchado! Falsos Justiceiros Hipócritas Sociais!

E, para avacalhar de vez os milhares de vermes mimimizentos de mau caráter que o ofenderam e ameaçaram, o guri mostrou que não está nem aí com a palhaçada e fez piada em cima da própria piada, sendo que esta postagem já está com três mil, quatrocentos e poucos compartilhamentos e seis mil e poucos comentários:

Tipo… Fez alguma diferença na vida de alguém que de fato estivesse passando sede? Não. E os vermes mimimizentos, uma vez desembestados na sua sede (com trocadilho) de sangue, continuaram o ataque:

Se quer vitalizar sai correndo pelado na rua (sic)

Era para ser viralizar, óbvio.

Ofensas… 

Lixo lixo lixo..vai fica pior q ele seu merda……estora essa cra de lixo

Ameaças…

Ridículo…Toma cuidado quando sair …Se te pegarem vão te quebrar na porrada vagabundo.

Vai aprodesce.se te vejo te encho de chumbo troxa

Pensa que isso vai muda alguma coisa seu lixo de merda, isso so piora sua situação seu Hipócrita, não sei como ainda tem gente seguindo esse lixo, Si cada um lascasse um processo vc ia vê se fez certo!

E, obviamente, sempre tem um com bom senso:

Ele ja tiro essa foto com consciência dos comentários dos otarios que chinga pra da risada deles kkkkkkkkkk

Enfim…

Um guri faz uma piadinha boba – uma simples piadinha boba – e milhares de imbecis se lançam em fúria contra a piadinha, cometendo no processo um sem número de ofensas e ameaças, muitas das quais certamente passíveis de processo criminal. Estes são os guerreiros da justiça social demonstrando sua verdadeira índole, seu mau caráter e sua completa incoerência e intolerância.

Alguns meses atrás eu estaria esbravejando e espumando de raiva por causa disso.

Hoje eu aproveito para escrever um artigo na boa e sinto um levíssimo, reconfortante e delicioso desprezo!

Por Tutatis! Estou adquirindo imunidade! 🙂 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 05/01/2017

A estupidez é cansativa

A estupidez alheia é deletéria aos indivíduos razoáveis. A gente (blogueiros, jornalistas, colunistas) detecta uma questão interessante sobre a qual falar, analisa a questão por diversos ângulos, se posiciona, defende uma posição com argumentos lógicos… E aí vem um quadrúpede e deixa pelo texto aquilo que os quadrúpedes costumam deixar pelo chão.

O Túlio Milman, repórter de Zero Hora, escreveu um artigo sóbrio, politicamente correto e com um enorme aviso sobre o que estava e o que não estava dizendo ao pé do texto, bem no estilo “atenção, retardados, não falem besteira” – só que bem educadinho. Mas não adianta. Nunca adianta.

O artigo do Túlio Milman é este:

A maconha será um dos mais lucrativos mercados regulamentados do mundo

A maconha será um dos mais lucrativos mercados regulamentados do mundo no futuro próximo. Não precisa ser guru de marketing para ter certeza. É só olhar o que acontece, entre nuvens de fumaça, nos Estados Unidos.

A liberação do chamado consumo recreativo em uma dezena de Estados é um exemplo de como um tecido econômico saudável se forma. Como a droga ainda é proibida pela lei federal, toda a produção é local. Não há espaço para monopólios e cartéis. Há hoje centenas de pequenos plantadores, pesquisadores e vendedores. Mas, se alguém cruzar a divisa do seu Estado com a planta, corre o risco de ser preso. Isso acaba estimulando o crescimento de uma base plural e democrática.

É lindo ver essa capilaridade, essa inteligência de mercado. Não sejamos ingênuos. As gigantes farmacêuticas e de alimentos estão de olho nesses bilhões de dólares. Só que é mais barato e rápido esperar que as startups da Cannabis nasçam e se engalfinhem na disputa pela sobrevivência. As que crescerem, mais cedo ou mais tarde, serão compradas pelas grandes. É mais barato do que investir diretamente no desenvolvimento de novos produtos. É só assinar o cheque. Com menos riscos e menos custos.

Enquanto isso, sem concentração ou regras viciadas que favoreçam os mais fortes, a economia colhe benefícios.
Além da planta, há acessórios, xampus, cremes, remédios, alimentos, sucos. Marley Natural é a primeira marca global desse mercado. Confira: www.marleynatural.com.

Maconha é uma droga que pode viciar. É proibida no Brasil e em nenhum momento meu texto pretendeu estimular o consumo ou a compra de qualquer produto vinculado a ela. Quero apenas mostrar como uma lógica democrática de mercado faz bem à sociedade. Seja na maconha ou na construção de obras públicas. Monopólios e cartéis, isso sim é uma droga.

Aí vem um quadrúpede logo abaixo e deixa esta resposta:

Essa conversa me lembra aquela frase: “antigamente era feio dar o C e era bonito fumar, hoje é feio fumar e bonito dar o C” (sqn).. Uma campanha mundial e permanente contra o tabagismo e na contramão do interesse de saúde pública essa discussão com a maconha.. Porr.. Quer fumar esta droga fuma carvalho, como eu mesmo já fiz quando era um guri idiota.. Mas não peçam que os outros achem isso bom ou normal.. Ou os retardados acham que os traficantes vão virar padres porque perderão o “emprego”?? Óbvio que não, vão continuar com os mesmos clientes, vendendo outras drogas, ou migrando de crime.. Vai burro, noiado esquizofrênico, assassino de neurônios, fuma tua maconha escondido e não enche o saco..

E outro quadrúpede acrescenta isso:

A de cocaína então… seremos primeiro mundo.

A estupidez destas criaturas é tão grande que não entendo como conseguiram fugir da carrocinha. 

O assunto do artigo do Túlio nem de longe é a maconha. O próprio Túlio diz que considera a maconha uma droga ilegal que pode viciar (vou deixar essa controvérsia de lado neste artigo) e afirma explicitamente que não pretende estimular o consumo de nenhum produto relacionado à maconha e que que seu artigo só pretende “mostrar como uma lógica democrática de mercado faz bem à sociedade”. Está lá, literalmente como citado, muito bem ressalvado e esclarecido. Mas não adianta. A estupidez dos quadrúpedes é feita de um material adamantino à prova de alertas, ressalvas e esclarecimentos.

O quadrúpede lê uma palavra que serve como gatilho para sua estupidez assumir o controle e sai despejando besteira como se tivesse lido outro texto, que só existe na cabeça alucinada dele. E fala como se tivesse grande entendimento sobre o que leu e grande conhecimento sobre o tema, quando obviamente não é o caso nem de uma, nem de outra. E outros quadrúpedes ecoam a estupidez do primeiro, ou acrescentam as suas próprias, até que o debate se perde coice abaixo. Irrecuperavelmente.

Céus, como a estupidez me cansa.

A estupidez me cansa tanto que eu já tentei todo tipo de estratégia possível para lidar com ela: desde explicar as coisas várias vezes, com toda a paciência, uma vez por um ângulo, outra vez por outro ângulo, tentando fazer o quadrúpede entender que pantufa não é ferradura, até simplesmente escoicear de volta, de saco cheio, passando por todo o espectro possível e imaginável entre uma coisa e outra. Nunca adiantou.

Chegou um momento em que eu tive que desenvolver uma estratégia que eu sempre abominei: eu tive que parar de me importar com a estupidez. O problema é que isso requer perder o respeito pelo estúpido, uma coisa que eu, como defensor aguerrido dos Direitos Humanos, nunca consegui tolerar, muito menos aceitar, muitíssimo menos praticar. Porém, após esgotar todas as alternativas, eu finalmente me rendi à necessidade, em nome de minha própria sanidade mental, e parei de me importar no mais alto grau que estava a meu alcance.

De modo não muito eficaz, diga-se. Porque, apesar de todos os esforços, e embora muito menos do que num passado recente, a estupidez ainda me cansa.

Como diria o Hardy: “Oh, céus! Oh, vida!” 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/01/2017

Eu não gosto de macacas de salto alto

Eu sou um macaco. Você é um macaco. Somos todos macacos. Nossa espécie é um macaco falante que há cerca de três milhões e setecentos mil anos atrás realizou uma interessante transição do quadrumanismo arborícola para o bipedismo terrestre. Sim, nós éramos quadrúmanos, como nosso primo mais próximo, o chimpanzé. Mas precisamos transformar duas de nossas mãos em pés para podermos manter o equilíbrio, percorrer grandes distâncias e carregar pesos consideráveis.

macaca-linda

Caminhar apoiado em mãos é algo muito instável, como podemos observar em nossos primos chimpanzés quando se deslocam eretos sobre as duas mãos traseiras. As necessidades de manter o equilíbrio e percorrer um grande território em busca de caça foram selecionando aqueles dentre nós com uma conformação corporal cada vez mais adequada para percorrer grandes distâncias e carregar o produto da caça e da coleta de volta para o local de acampamento do grupo tribal.

Ao longo da evolução, os corpos com maior eficiência para se manterem equilibrados na posição bípede foram sendo selecionados, nossas ossaturas e musculaturas se tornaram cada vez mais adaptadas para caminharmos eretos sobre os membros posteriores e podemos dizer que nossos braços posteriores se tornaram pernas e nossas mãos posteriores se tornaram pés. Pés que precisavam ter cada vez mais área de contato com o solo, tanto para manter o equilíbrio quanto para proporcionar tração.

Ora, se há duas coisas que são absolutamente prejudicadas com o uso de saltos altos são o equilíbrio e a tração. O salto alto  posiciona as articulações de modo antinatural, exige esforços também antinaturais da musculatura de todo o membro inferior e  modifica nosso centro de gravidade, o que prejudica nosso equilíbrio, e reduz a área de contato da planta do pé com o solo, o que reduz a tração. Trata-se de um aparato de propósito estético questionável que prejudica inquestionavelmente a função.

As macacas falantes podem achar seus saltos altos lindos e deslumbrantes, podem achar que eles “valorizam” suas pernas, mas a verdade é que este é um mero efeito de alongamento, que é o que é ilusoriamente interpretado por nosso cérebro da idade da pedra como belo. Porém, macacaquinhas queridas, vocês não precisam disso. Nós macacos falantes machos pertencemos à mesma espécie de vocês e apreciamos os corpos de nossas fêmeas como a natureza os fez.

Eu mesmo não gosto nem da periclitância, nem da estética do salto alto. Prefiro que vocês preservem a saúde de suas articulações e fiquem mais seguras e confortáveis usando saltos baixos no dia-a-dia, reservando o salto alto somente para raras ocasiões festivas, se tanto. Até porque, caríssimas símias, vocês ficam lindas até mesmo ou principalmente descalças, assim como a bela macaca da foto que ilustra este artigo. Tenham consciência disso.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 20/11/2016

SOMOS TODOS MACACOS!

Acho patético esse mimimi de quem acha que tem o direito de não ser ofendido e tem a pretensão totalitária de calar o outro. Quem tenta calar quem o considera inferior dá razão a quem pensa assim, porque só um verme derrete perante um comentário ácido. Que me xinguem à vontade. Alguém acha que eu vou ficar com dodói na autoestima? Que vou me importar com a opinião do imbecil que tentar me ofender e conferir a algum otário o poder de fazê-lo?

macacos-falantes

Chamaram a primeira-dama dos EUA de “macaca de salto alto”. O que deu nela para se ofender? Ela não sabe que somos todos macacos? O que ela pensa que é, um réptil? Alguém acha que uma pessoa que passou oito anos sendo alvo de todo tipo de boato venenoso e insinuação pervertida, de críticas virulentas e de comentários muito mais ofensivos está realmente com dodói porque foi chamada de macaca? Ah, tenham santa paciência, é ridículo demais para meu pobre fígado!

Eu sou um macaco. Você é um macaco. Cada ser humano que já houve, há ou haverá neste mundo é um macaco. Não faz o menor sentido ofender-se com a simples enunciação de nossa óbvia, evidente, explícita, inegável natureza! Quem tem vergonha de ser um macaco ou é um coitado com graves problemas de autoaceitação, ou está fazendo um jogo político absolutamente hipócrita para se empoderar manipulando o sentimento de pena e coitadismo dos politicamente corretos e dos bocós que caem nessa esparrela.

E vamos que me chamassem de outra coisa ofensiva. O que seria? Veado, tentando me ofender me atribuindo uma suposta homossexualidade? Como poderiam fazer isso, se eu considero lícita e respeitável qualquer sexualidade exercida sem violação de direitos de terceiros? Gordo, tentando me ofender porque eu já estive obeso e ainda estou um pouco acima do peso? Como poderiam fazer isso, se eu era gordo mesmo e sou o primeiro a reconhecer? Feio, tentando me ofender atacando minha aparência? Como poderiam fazer isso, se eu tenho espelho em casa? Mau caráter, tentando me ofender com o enxovalhamento da mais sagrada estrutura do meu ser, que eu cultivo com retidão e convicção desde sempre? Como poderiam fazer isso, se eu sei que sou um ser humano íntegro e honrado?

Não consigo imaginar como alguém possa me ofender. Deixando de confiar em mim, sabendo o valor que dou a minha palavra? Quem fizer isso é que é um idiota. Lançando acusações falsas? Por que eu me afetaria moralmente por acusações falsas? Lançando acusações verdadeiras? Por que eu me afetaria moralmente pela verdade? Simplesmente não há como ofender, humilhar ou fazer dodói moral em quem tem uma autoestima sólida e não abre espaço para se sentir atingido pela estupidez ou para a perversão de caráter de terceiros. Eu simplesmente não bebo o veneno alheio!

Se você pensa horrores de mim, o problema é seu. Se você diz horrores de mim, o direito é seu. Talvez eu meta um soco na sua cara se você fizer isso de modo particularmente indignante e ao alcance da minha mão. Talvez eu faça até mesmo algo muito pior, no momento em que me ferver o sangue. Afinal, eu sou um macaco, e não é seguro fazer palhaçada perto demais de um macaco que pode reagir com fúria. Você, que é outro macaco, deveria saber disso. Mas processar alguém por dizer besteira pela internet? Aí não é a reação de um macaco, é a reação de um verme mimimizento que precisa que os outros protejam sua “dignidade” de açúcar que derrete com qualquer cuspida, inclusive uma virtual. Ou de um canalha hipócrita tentando tirar vantagem de uma legislação intolerante e degradante.

Não seja um verme mimimizento. Se você é um ser humano, tenha dignidade e erga a cabeça perante qualquer tentativa de ofensa. Não dê poder à ideologia de criminalização do pensamento. Ninguém tem o direito de não ser ofendido, nem pode ter este direito. Isso é uma monstruosa ferramenta de opressão que tem que ser completamente desativada em qualquer sociedade civilizada. Somente os vermes e os mal intencionados se beneficiam de uma aberração destas. Não podemos permitir jamais que este tipo de perversão degradante se torne o norte de toda a sociedade.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 16/11/2016

Um único parágrafo sobre o Brexit

O Brexit é tão bom, mas tão bom, que, quando o resultado do plebiscito foi anunciado, Boris Johnson, o prefeito de Londres, ícone da campanha vitoriosa pelo Brexit, desistiu de concorrer ao cargo de primeiro-ministro. Pois hoje, para completar o fiasco, Nigel Farade, o agressivo líder do Partido pela Independência do Reino Unido, totalmente pró-Brexit, abandonou o cargo. Os ratos furaram o fundo do casco e agora estão abandonando o navio. 

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 04/07/2016

Qualidade Suficiente

Todo mundo sabe que a burocracia e a corrupção são dois grandes entraves para a criação de um ambiente de sucesso sócio-econômico, mas pouca gente leva em consideração o quanto é daninha a falta daquele tanto de qualidade que obviamente poderia ser melhorado, mas que não o é porque o consumidor compra o produto assim mesmo, do jeito que está, porque tem “qualidade suficiente”. 

Pipoca

A qualidade suficiente tem exemplos por todo o lado. Ninguém deixa de comprar um automóvel porque não há um lugar para colocar o guarda-chuva molhado em dias de chuva – e a indústria automobilística não se preocupa em resolver este problema porque o consumidor sempre compra algum carro assim mesmo. Ninguém deixa de comprar pipoca na praça porque não são oferecidos guardanapos para tirar o óleo das mãos depois do consumo – e os pipoqueiros não se preocupam em resolver este problema porque o consumidor sempre compra pipoca assim mesmo. Há exemplos para todos os bolsos.

A má notícia é que este problema veio para ficar. Ou pelo menos para ficar por muito tempo, porque o macaco falante médio se contenta com a qualidade suficiente. Se ele tiver que pagar R$ 200,00 de diferença entre dois carros iguais em tudo menos na presença de uma incrivelmente bem bolada solução para o guarda-chuva molhado, o macaco falante médio em geral irá “economizar” menos de 1% do valor do veículo e comprar a versão mais barata. Se ele tiver que pagar R$ 0,25 de diferença entre o saco de pipocas com guardanapos e sem guardanapos, o macaco falante médio em geral vai pedir o troco, lamber as mãos e secar na roupa.

É natural que seja assim. O macaco falante médio é um beta ou um ômega. O ômega dificilmente compra carro, mas compra pipoca, pega ônibus comendo pipoca e deixa tudo melecado com a gordura da pipoca. E o outro ômega não deixa de pegar ônibus melecado com gordura de pipoca, nem reclama disso, porque ônibus melecado com gordura de pipoca tem qualidade suficiente para o ômega. Quem reclama ou pega o lotação em busca de higiene é o beta. O alfa vai de carro. Sem meleca de gordura de pipoca e sem reclamação.

Aceitar a qualidade suficiente é o que leva o macaco falante médio a resolver tudo com gambiarras. O hoje extinto Bom-Bril na antena da televisão é um ícone da qualidade suficiente. Seu sucessor não tão óbvio é o computador com programa antivírus. Pense bem: um sistema operacional tem que ser seguro de fábrica. Ter que instalar um segundo programa para evitar que o primeiro programa não seja invadido por um terceiro programa é uma baita gambiarra. (Aposto que você não tinha percebido isso. E aposto que você não vai trocar seu Windows por um Linux por isso, nem sequer passar a rodar seu Windows como uma máquina virtual dentro de um Linux. Na verdade, eu aposto que você nem sabe o que é isso. É natural. Todo mundo se contenta com qualidade suficiente em alguma área.)

O grande problema da qualidade suficiente é a sinergia. O pneu tem qualidade suficiente. A suspensão do carro tem qualidade suficiente. O asfalto tem qualidade suficiente. E o resultado é que o seu carro volta e meia acaba numa borracharia ou mecânica de beira de estrada. Nem vou falar da pipoca. (Argh.) Já o seu computador volta e meia trava e de vez em quando você perde uma parte do que estava fazendo.

O custo disso? Bilhões e bilhões de dólares, muito tempo de vida desperdiçado, muito sofrimento e até mortes. Afinal, o cinto de segurança tem qualidade suficiente, o atendimento hospitalar tem qualidade suficiente, a fiscalização do poder público tem qualidade suficiente, a vida tem qualidade suficiente.

E vai continuar assim, porque a cidadania do macaco falante também tem qualidade suficiente.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 03/07/2016

Brexit: quando a xenofobia causa o caos

Não há outro assunto no meu Facebook nos últimos dias, então eu resolvi escrever um segundo artigo sobre o Brexit, fazendo algumas constatações e algumas previsões. A primeira delas: não foi a luta pela liberdade que produziu o resultado do plebiscito do Brexit, foi predominantemente xenofobia

Vermes Polacos

A frase acima – algo como “vamos sair da União Européia – chega de vermes poloneses” – foi afixada próxima a uma escola em Cambridge. No mesmo dia, cartazes com a inscrição “go home polish scum” (voltem para casa, escumalha polonesa) foram afixados na fachada de um centro cultural polonês. E esse tipo de coisa tem acontecido em diversos locais pelo Reino Unido nos últimos dias, demonstrando claramente que a xenofobia foi um dos principais fatores que levou ao resultado do plebiscito do Brexit, provavelmente o principal.

Isso está claro para todo mundo, menos para alguns auto-proclamados “liberais” que estão dizendo basicamente duas coisas: primeiro, que a União Européia é um projeto fracassado, de matiz socialista, que sufoca a soberania dos Estados-Nações; segundo, que o Brexit foi a melhor decisão possível para defender a liberdade dos indivíduos e a economia do Reino Unido. Esse pessoal está completamente errado em ambas as afirmações.

A União Européia têm defeitos, é claro, como toda construção humana. Em especial, a União Européia padece de extrema burocracia, excesso de regulamentação e falta de transparência. São problemas graves e ninguém disse o contrário, mas são problemas solucionáveis através do mesmo processo que levou à criação da União Européia: diálogo, negociação e foco nos objetivos de garantir a paz, aumentar a liberdade das pessoas e fortalecer as economias do continente.

Quanto ao projeto supostamente fracassado e de matiz socialista, temos que lembrar que, na história do socialismo, todos os países que adotaram essa ideologia maldita sofreram êxodo populacional, muitos deles tendo fechado suas fronteiras para impedir que sua população fugisse para lugares mais prósperos. A União Européia, entretanto, tem enfrentado o problema oposto: um excesso de imigração em busca de um ambiente econômico mais próspero e de maior liberdade individual. O próprio perfil migratório da União Européia desmente seu pretenso matiz socialista.

Quanto ao Brexit ser uma ação em defesa da liberdade, é pura e simplesmente mentira. As pessoas deixarão de ter a liberdade migratória de que hoje desfrutam e passarão a enfrentar barreiras. As mercadorias deixarão de ter isenção de taxas alfandegárias e passarão a enfrentar impostos de exportação e de importação nos dois sentidos entre o Reino Unido e a União Européia. E todos os acordos comerciais que o Reino Unido tentar fazer com qualquer país da União Européia terão de qualquer modo que ser aprovados pelas regras da União Européia, o que significa que haverá apenas perdas e não ganhos de liberdade.

Mas isso não é tudo. Os pretensos “liberais” que são contrários ao acordo de cooperação voluntária chamado de União Européia dizem que o Brexit é a melhor escolha possível devido a seus efeitos saudáveis na economia do Reino Unido, que se tornará “mais livre e mais forte”. Bem, isso é o que eles dizem. O que os mercados dizem é que a bolsa de valores despencou 12,5% em um único dia e teve outras quedas subseqüentes, que a libra esterlina despencou e está em seu valor mais baixo perante o dólar nos últimos trinta e um anos, que a previsão do PIB do Reino Unido para este ano já caiu 1,5% e que os mercados futuros desabaram e vão continuar caindo, um caos tão dramático que duas das três maiores agências internacionais classificadoras de risco rebaixaram a nota do Reino Unido – a Standard & Poor’s em dois degraus de uma só vez e a Ficht em um degrau. Será mesmo que estes supostos “liberais” sabem melhor que o mercado o que é melhor para o mercado?

Tem mais. A Escócia fez um plebiscito dois anos atrás para definir se ficaria no Reino Unido ou se se tornaria independente. A União Européia disse que, se a Escócia saísse do Reino Unido, teria que abandonar também a União Européia. Então, para permanecer na União Européia, a Escócia abriu mão de sua independência perante o Reino Unido. No plebiscito da semana passada, a Escócia foi coerente com sua posição de dois anos atrás: quase dois terços dos votos válidos dos escoceses confirmou a intenção de permanecer na União Européia. Entretanto, o resultado global do plebiscito no Reino Unido obriga a Escócia a se retirar da União Européia contra sua vontade, ironicamente em função de ter aberto mão de sua independência perante o Reino Unido para poder permanecer na União Européia! Não surpreendentemente, a Escócia já anunciou que vai tentar vetar o resultado do plebiscito e que se não o conseguir chamará um novo plebiscito sobre a independência, pois “não será arrancada da União Européia contra sua vontade”. O Brexit significará, portanto, não a saída do Reino Unido da União Européia, mas a dissolução do Reino Unido.

E tem ainda mais. Na Irlanda do Norte, o partido Sinn Fein já anunciou que pedirá um plebiscito para reunificar o país com a Irlanda, que também pertence à União Européia. Talvez a reunificação das Irlandas seja o único efeito positivo do Brexit, ao custo da dissolução do Reino Unido.

Isso sem nem entrar muito em detalhes sobre o nível do pessoal da campanha pelo Brexit. Clique no link e assista Nigel Farage, líder do UKIP (Partido pela Independência do Reino Unido), cometer uma inominável série de disparates e ofensas contra Herman van Rompuy, então presidente da União Europeia (2009 – 2014), e contra a Bégica inteira, apenas porque é o país de origem deste. O vídeo está no YouTube e tem menos de um minuto e meio.

Por tudo isso eu não estranho nem um pouco que, em apenas três dias, o parlamento britânico já tenha recebido mais de três milhões e trezentas mil assinaturas solicitando um novo plebiscito. Simplesmente a população britânica não tinha idéia da real importância e das conseqüências daquilo que estava votando. Muitos foram enganados com as alegações fantasiosas de “uma prosperidade econômica inimaginável” caso ocorresse a saída da União Européia. Outros tantos ou ainda mais foram instigados a votar pela saída tendo insuflados sentimentos xenófobos comuns em épocas de crise.

O outro, o desconhecido, o estranho sempre foi um bom bode expiatório para todo fanático cuja ideologia se beneficia do acirramento de ânimos e do ataque a uma vítima indefesa e conveniente. O imigrante é sempre o melhor dos bodes expiatórios, porque ele tem aparência diferente, hábitos diferentes e em geral uma barreira linguística que impede ou ao menos dificulta muito que ele se torne conhecido e as diferenças de sua cultura sejam compreendidas.

Finalmente, eu me arrisco a fazer duas previsões.

A primeira é que não haverá um Brexit. O choque foi tão forte, os prejuízos foram tão grandes e o clima de hostilidade que a decisão xenófoba provocou em toda a Europa foram tão intensos que muito provavelmente o Reino Unido vai dar um jeito de fazer alguma gambiarra para permanecer na União Européia. O atual primeiro-ministro, que chamou o plebiscito apesar de querer permanecer na União Européia, já anunciou que deixará o cargo até outubro e que não será ele quem encaminhará a comunicação oficial à União Européia solicitando o desligamento do Reino Unido. O maior defensor do Brexit dentro de seu próprio partido já disse que não tem pressa em sair da União Européia – uma afirmação canalha que demonstra claramente que percebeu o tamanho da enrascada em que meteu o país e que está ganhando tempo para arranjar alguma saída da saída.

A segunda é que a União Européia se fortalecerá. A reação de Alemanha, França e Itália foi de irritação e impaciência com o Brexit, exigindo que o Reino Unido saia de uma vez e alertando que não haverá negociações formais ou informais enquanto não houver a solicitação formal de saída do Reino Unido. Ou seja, não há espaço para mimimi e chorumelas, ninguém vai aliviar a barra e quem quiser abandonar o navio terá que assumir sozinho a responsabilidade por todas as suas decisões, não importa quem seja o retirante. É uma decisão dura, digna e responsável, que valoriza extremamente o projeto europeu e que pelo tom com que está sendo transmitida firma uma posição bem clara sobre a xenofobia: não é bem-vinda.

Eu posso errar, é claro. Não me dediquei a ler de modo muito profundo sobre o assunto, tomei por base os dados mais amplamente disponíveis e fiz uma avaliação baseada no que é mais razoável fazer para o bem de todos os envolvidos – o que não costuma ser o forte do macaco falante, como o próprio resultado do plebiscito mostra. Mas acho que há uma grande chance de eu vir a acertar as duas previsões.

Será divertido acompanhar a política européia nos próximos meses.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 27/06/2016

Adendo a 16/11/2016: um artigo que mostra que eu estava certo quanto ao Brexit ser motivado por xenofobia.

O Ocidente após o Brexit

O assunto do momento é o “Brexit”, abreviatura de Britanic exit, a saída do Reino Unido da União Européia. Eu não havia tocado neste assunto antes porque jamais imaginei que a Inglaterra cometesse uma burrice deste tamanho. Gibraltar, Escócia, Irlanda do Norte e a região de Londres votaram pela permanência. O resto da Inglaterra e o País de Gales votaram pela saída e deflagraram uma crise que poderá modificar radicalmente tanto a União Européia quanto o próprio Reino Unido.

Brexit

A primeira-ministra da Escócia já deixou claro que, com 62% de votos pela permanência na União Européia, “a Escócia se vê como parte da União Européia e não aceita ser retirada do bloco contra sua vontade”. Um plebiscito sobre a independência da Escócia perante o Reino Unido já está sendo pensado. Na Irlanda do Norte, o partido Sinn Fein, antigamente conhecido como o braço político do IRA, anunciou que pretende lançar um plebiscito de reunificação das duas Irlandas! Quanto a Gibraltar, nada menos que 95% da população votou pela permanência. O quadro geral é de uma possível desagregação do próprio Reino Unido, algo impensável até anteontem.

Os mercados deixaram sua posição inequívoca: a libra esterlina despencou perante o dólar, as bolsas de valores do mundo inteiro fecharam em queda e os operadores das bolsas deram declarações dizendo que felizmente é sexta-feira, porque as quedas seriam muito maiores se fosse um início de semana. Os mercados futuros caíram no mundo inteiro, da Ásia às Américas.

O Japão está extremamente preocupado com as conseqüências econômicas do Brexit, pois muitas empresas japonesas têm a Inglaterra como porta de entrada para o mercado europeu e a saída da Inglaterra da União Européia significará uma alteração significativa nas tarifas sobre os produtos japoneses na Europa. É provável que indústrias japonesas migrem para outros países da Europa. A Ucrânia já anunciou que o Brexit alterará suas relações com a União Européia e possivelmente a isenção dos vistos será adiada. A Espanha já propôs uma partilha de soberania sobre Gibraltar, para que a península não seja praticamente transformada em uma ilha. A Itália já anunciou que quer sediar a Agência Européia de Medicamentos, atualmente sediada em Londres. E até as Ilhas Malvinas, ou Falklands, serão afetadas com o aumento das tarifas de suas exportações para a União Européia.

Mas estas estão longe de ser as piores conseqüências.

O pior de tudo é o precedente político. Os britânicos, que nunca se integraram completamente à União Européia, tendo mantido moeda própria e ficado de fora do Espaço Shengen, provocaram agora o início de uma onda de questionamento da União Européia que pode resultar em diversos plebiscitos do mesmo tipo, na saída de outros membros e na completa descaracterização do bloco, talvez sua inviabilidade, justamente no momento em que uma crise de refugiados do Oriente Médio, entre os quais se calcula haver mais de cinco mil terroristas infiltrados, traz os maiores desafios para a segurança dos cidadãos e para a economia de todo o continente Europeu. O dano político que o processo agora iniciado pode trazer para o que chamamos de Ocidente tem potencial para ser o maior desde a Segunda Guerra Mundial.

Para quem ainda não entendeu: pode ser que sim, pode ser que não, mas este episódio tem o potencial de ser o marco inicial da redefinição de tudo o que conhecemos em termos de geopolítica e talvez até mesmo da própria identidade da civilização ocidental. Nunca desde o século XVIII o mundo precisou tanto de Enlightenment (Esclarecimento, Iluminismo).

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 24/06/2016

Atualização a 25/06/2016:

Eu não acho que esta tenha sido uma batalha entre direita e esquerda. Esta foi uma batalha entre os dois times do embrutecimento (a direita e a esquerda) e o time da sensibilidade e da razoabilidade (o centro iluminista).

A esquerda queria ficar pelos motivos errados. A direita queria sair pelos motivos errados. E a atitude certa a tomar, que é a revisão dos problemas que estão levando os membros da União Européia a querer abandonar o acordo – porque estão descontentes – não está sendo nem sequer cogitada.

Isso é ridículo: a União Européia foi um acordo negociado longamente e com muito diálogo… E agora tudo o que está sendo proposto é “aderir ou sair”, sem negociação e sem diálogo para resolver os problemas do bloco…

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br – 25/06/2016