Um novo recomeço

Hoje faço uma breve retrospectiva geral do blog. Anuncio que tornei indisponíveis TODOS os artigos publicados de 24/09/2009 a 05/04/2018. Isso tem uma razão: o blog estava parado e eu estou planejando um novo recomeço para breve. Não tenho uma data específica ainda. Mas lanço como registro um último artigo ao estilo antigo, só para matar a saudade. Quem sabe o que virá no próximo recomeço? Não perca os próximos episódios… Uma hora destas.


Desde 24/06/2009, o blog chegou em seus melhores momentos a ter uma média de mais de três mil visualizações diárias e picos de mais de cinco mil visualizações em um único dia, tendo a maior parte de seus melhores artigos sido escrita de improviso em uma sentada só, normalmente após às 22:00 e muitas vezes varando a madrugada. Foi uma época maravilhosa.

A partir do artigo “O Brasil é um pântano”, publicado em 21/05/2014, no auge do maior surto de intolerância e criminalidade institucional que empesteou nosso país por 13 anos e ainda surtirá nefastos efeitos por no mínimo outra década e meia, o blog passou a refletir o desgaste do autor. A qualidade e a frequência das postagens caiu. Foi uma época angustiante.

Finalmente, no início de 2016, o blog parou de receber atualizações por sete meses, numa tentativa de recuperar o fôlego para retomar seu caminho. Não foi suficiente. O clima de ódio, deboche, abuso e degradação generalizada da política nacional levou o autor à completa exaustão. Não havia mais debate nem troca de ideias no país, pois os arautos da chafurda moral que tomou contadas instituições e da cultura brasileira, que já vinha irrespirável desde a abjeta campanha eleitoral de 2014, acirraram de tal maneira o cultivo da depravação, do ódio e do conflito irracional no Brasil que nenhum prazer restou em tentar exercer uma atividade intelectual lúcida em público, se é que isso era possível sob o clima reinante de abominável escárnio pelo mais elementar bom senso, decência, razoabilidade e coerência.

No dia 15/01/2017, com o artigo “Passando a régua”, convencendo-se finalmente de que estava por demais indignado e talvez próximo de perder o controle emocional devido ao constante bombardeio de provocações dos MAV da vida e de ataques repugnantes que invadiam todo e qualquer espaço virtual em busca da conquista da hegemonia cultural da mais depravada ideologia que já governou este país, ou de sua nêmesis igualmente perniciosa, o autor declarou que a partir dali o blog receberia apenas atualizações eventuais. E assim o blog andou aproximadamente mais um ano, como um walking dead, até que as atualizações se tornaram tão esparsas que foi forçoso reconhecer que o blog já não existia e não tornaria a se reerguer em seu formato original.

O autor, entretanto, deve ser uma das mais teimosas criaturas que respiram sobre este planeta. Não desistirei jamais de cultivar com todas as minhas forças os valores iluministas. Não admito a condução do meu país à degradação moral, à miséria econômica e à opressão política pelos canalhas cujos adequados epítetos exigiriam linguagem chula demais para ser posta por escrito, sendo cabíveis apenas nos mais exaltados momentos da linguagem oral, quando o sangue ferve nas artérias de quem não tolera a perversão de conceitos carísssimos como ética, democracia e justiça. Não desistirei de purgar de meus próprios sentimentos o embrutecimento a que fui submetido e do qual fui impregnado pelo ambiente de pestilência ativamente cultivado por ativistas virtuais e milhares de idiotas úteis incapazes de perceber que estavam sendo manipulados para cavar o buraco que leva ao inferno no qual seriam triturados.

O obscurantismo se combate com o esclarecimento e tenho a mais profunda convicção de que cada um de nós possui uma centelha inapagável e indestrutível de dignidade, racionalidade e capacidade de contribuir para a retomada do bom combate, da reparação do mal, da reedificação da ordem e do cultivo da liberdade, do bom e do belo. E estou convicto também de que é responsabilidade de cada um de nós contribuir com as forças de que dispusermos para que o ambiente em que vivemos deixe de ser esta constante e insuportável exaltação do conflito e da animosidade e volte a ser saudável, próspero, harmônico e agradável, que é o que todos desejamos para nossas vidas.

Aprendamos por um lado com Mahatma Gandhi, negando-nos a colaborar com o inimigo, e por outro com Thomas Jefferson, que muito sabiamente esculpiu na história a noção de que “o preço da liberdade é a eterna vigilância“. É imperativo que abandonemos a tendência de “deixar para lá” quando os arautos da intolerância de todas as crenças ou ideologias plantam ventos, pois logo adiante colheremos tempestades por culpa de nossa preguiça, covardia ou completa estupidez por tolerar o intolerável sob a medíocre desculpa de que não se pode agir com intolerância contra o intolerante sob o risco de tornar-se igual à ele. Tolerar o intolerável é que torna alguém igual ou pior que o intolerante convicto.

METATOLERÂNCIA é nosso objetivo: ser tolerantes com os tolerantes e intolerantes com os intolerantes, para que ninguém imponha sua intolerância sobre nós. Urge aprender que o mérito das ações de curto prazo deve ser avaliado em função de suas consequências de longo prazo e que o mérito de ações isoladas deve ser avaliado em função de suas consequências sistêmicas. A democracia, a retidão e a paz devem aniquilar seus inimigos, impiedosa e implacavelmente, sob pena de voluntária autodestruição, seja por lamentável ingenuidade, seja por detestável pusilanimidade.

Não é fácil a tarefa das pessoas de bem. Não é fácil cultivar flores quando incendiários invadem nossos campos dia e noite e buscam incessantemente nos levar à desistência pela exaustão. Porém, permitir-se fraquejar, procrastinar ou relativizar o valor da própria autopreservação nesta declaradíssima guerra entre a leveza que desejamos e a brutalidade que nos impõem equivale à mais completa aniquilação de tudo o que nos é mais caro, porque os nossos inimigos são vigilantes, incansáveis e inescrupulosos. Quando um não quer, dois não brigam, mas um apanha. Enquanto eles existirem, o preço de nossa liberdade, de nossa harmonia, de nossa paz e de nosso bem estar é a eterna vigilância e o combate mais fulminantemente obliterador possível e imaginável das pretensões dos que tentam baixar nosso nível de ética ou de moralidade um milímetro que seja, porque amanhã haverá outro milímetro, e depois de amanhã mais um, até que as Fossas Marianas não serão profundas o suficiente para enterrar as gigantescas consequências de nossa vergonhosa complacência com o mal e o Atacama não será seco o suficiente para se comparar com nossa sede de um socorro que nunca virá. Nosso destino ou está em nossas mãos, ou está nas mãos daqueles que permitirmos que nos dominem.

Destroy the Sith we must. Omissão é suicídio, inocência é impossível, contemporização é pacto faustiano. O justo, sóbrio, decente, seguro e desejável não é um equilíbrio entre as forças da luz e as forças das trevas, mas o triunfo inequívoco da luz sobre as trevas. O direito de pensar diferente não justifica o pensar criminoso, ou maldoso, ou inconsequente, nem agir deste modo, nem justificar este modo de pensar ou agir.

Sabendo de tudo isso, nenhuma outra alternativa nos resta senão a decência, o cultivo ativo do bem, a vigilância e o implacável combate à intolerância e à perversão do que nos é digno, saudável e desejável. Você pode até tentar se iludir de que não está em guerra, mas esta opção não lhe é dada quando alguém declara guerra contra sua liberdade, sua segurança, seu bem estar, sua dignidade.

É isso o que me move a me reerguer e a utilizar as únicas armas de que disponho – as palavras e o exemplo de obstinada persistência – para chamar os amigos e todas as pessoas de boa vontade e que desejam viver em liberdade e com bem estar para abrir os olhos para nossa realidade, para compreender como de fato funciona o mundo a nossa volta e para nos organizarmos de todas as maneiras dignas possíveis para cooperar para que não sejamos nem ameaçados, nem submetidos, mas que possamos florescer sob a mais plena luz do Sol.

Arthur Golgo Lucas – www.arthur.bio.br –  06/04/2018